Dia de Luto Nacional - António Lobo Antunes (1942-2026)
António Lobo Antunes sobre a morte de Corino de Andrade
Dizem na telefonia do automóvel que morreu o dr. Corino de Andrade: era um dos últimos amigos vivos do meu pai.
(…)
Quando ia ao Porto visitava-o, e apareceu-me na apresentação de um livro. Gostava dele e respeitava-o. Era um homem livre e o único português, julgo eu, que deixou o nome associado a uma doença. (Felizes os astrónomos, escreveu não sei quem, que dão apelido às estrelas.) Mandava abraços para o meu pai que não abraçava quem quer que fosse. Transmitia-lhe os abraços do dr. Corino e ele, a afundar-se num livro.
– Hum
que, no caso do meu pai, significava uma espécie de ternura embaraçada. Portanto ao dizer na telefonia do automóvel que morreu o dr. Corino de Andrade a minha reacção imediata, automática, foi
– Hum
e como sou filho do meu pai isso significa, igualmente, uma espécie de ternura embaraçada.
Crónica “O amigo do meu pai” completa em:
Revista Visão; nº 644; julho de 2005
Quinto Livro de Crónicas, ISBN: 9789722053327, Dom Quixote, outubro de 2013


